domingo, 27 de novembro de 2011

O presente

Ah como eu fiquei feliz aquele dia. Não tinha presente melhor para ganhar. Não mesmo. Assim que minha madrinha chegou vi que tinha uma caixa em suas mãos. Uma pequena caixa que me chamou a atenção. Eu sabia que era um presente pra mim. Porque a última vez que ela veio me visitar ela me disse. Lembro-me das suas palavras que ficaram em minha mente: "A próxima vez que eu vier vou trazer um presente pra você!" Depois que ela embora naquele dia eu ficava imaginando o que seria o presente.
E ali estava a minha madrinha. Na minha frente com o meu presente. Mesmo eu não conseguindo saber o que tinha dentro daquela caixa, eu já estava feliz. Eu adorava ganhar presentes. Não pense que eu ganhava presentes toda semana. Não, era raro eu e meus irmãos ganharmos presentes. Muito raro. 
O que será que tinha naquela caixa? Roupa? Sapatos? Minha madrinha percebeu que eu estava ansiosa pra saber o que tinha ali. Ela me chamou e me entregou a caixa. "Eu sei que você vai amar esse presente!"- ela disse. Assim que a caixa foi parar em minhas mãos abri o mais depressa possível. O que eu vi lá dentro foi algo lindo, mágico, maravilhoso. Um sorriso se abriu em meu rosto. Uma lágrima escorreu do meu olho. 
Lágrima de alegria claro. O presente não era roupa nem sapato. Dentro daquela caixa tinham livros. Sim, livros, seis livros. 
A minha madrinha sabia o quanto eu gostava de ler. Tinha 15 anos e adorava devorar os livros que encontrava na minha frente. Como a situação financeira não era boa lá em casa, até aquele dia só tinha lido dois livros desde que eu tinha aprendido a ler. Li apenas os dois livros que tinham em casa várias e várias vezes. Já sabia a história de cor e salteado.
Depois que abri a caixa pedi licença e fui para o meu quarto. Fechei a porta, tirei os livros da caixa, senti o cheiro de livros novos, folheei, senti as folhas. Liguei o rádio bem baixinho com uma música suave, sentei na cama e comecei a minha viagem. A minha viagem em um outro mundo. Em um mundo de uma realidade diferente. Em um mundo onde ninguém é proibido de entrar! 
E hoje, com 75 anos, apesar de não ter saído muito de casa, eu descobri que eu conheci muitos e muitos lugares. Lugares que muita gente nem imagina que exista! 

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Ainda posso sorrir

E depois de um dia cheio de trabalho, cheio de nervosismo, raiva e tudo de pior que eu poderia sentir, tudo o que eu queria era deitar na minha cama e dormir. Quem sabe pra sempre? Não queria ouvir a voz de ninguém naquele dia. Só queria dormir. Será que se eu furasse o dedo em um agulha eu dormiria durante anos e anos e você viria e me acordaria com um beijo? Não encontrei agulha alguma em casa pra fazer o teste. Então tomei um banho e deitei. Estava viajando em meus pensamentos quando chega uma mensagem no meu celular. Será que meu chefe não consegui me esquecer um pouco? Será que ele não podia me deixar em paz pelo menos na minha casa? Mas a mensagem não era dele. Era sua. E depois daquela mensagem, que para muitos pode ser clichê, eu sorri. Um sorriso sincero. Depois daquelas palavras eu pude ter a certeza que acontecesse o que acontecesse você viria me acordar no dia seguinte com um beijo de bom. E assim eu adormeci. Pensando em você e contando as horas pra vir me acordar...

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Abraço protetor

Sexta feira a noite eu estava quase dormindo quando meu celular toca. Já era tarde e não estava esperando receber ligação de mais ninguém. Era a Clara me chamando pra ir à praia com ela, o namorado mais o Gabriel. No começo não queria ir porque estava cheia de trabalhos pra fazer. Mas depois acabei aceitando, precisava sair um pouco da cidade, ver as ondas do mar e o sol sem se preocupar com mais nada pelo menos por alguns dias. Arrumei minhas coisas e fui dormir. 
No dia seguinte bem cedo a eles passaram em casa. O dia estava lindo. Na estrada vimos o sol nascer, o vento entrando pela janela para refrescar, tudo estava perfeito. Mais o que estava mas perfeito naquele lugar era a pessoa que estava dirigindo o carro. O Gabriel. A Clara sabia o quanto eu era apaixonada por ele, não sei porque ela me chamou pra essa viagem. Pra me fazer sofrer mais? Enfim, não queria pensar nisso esses dias. Mas com ele no mesmo lugar que eu seria impossível. 
Chegando na praia eu e a Clara fomos dar uma arrumada na casa e os meninos foram surfar. Eles estavam contando os minutos pra chegarem à praia, no caminho o único assunto era surf, surf e surf. Eu e a Clara estávamos totalmente por fora. Mas era difícil mudar de assunto. Mesmo quando mudava por um instante, o surf voltava como assunto principal. 
Quartos e casa arrumada fomos preparar o almoço. Resolvemos fazer uma macarronada. Escolhemos alguma coisa simples porque a gente ainda queria aproveitar o dia. Como nem eu nem a Clara conseguia fazer alguma coisa sem música, pegamos o notebook e colocamos nossa música preferida bem alto e começamos a cantar como loucas. 
Quando a música acaba percebemos que os meninos estão na porta nos observando e dando risada. 
'Uau,vocês cantam muito bem!'- diz em tom super irônico o Carlos, namorado da Clara.
'Ah,obrigada!' - respondi com um sorriso. 
'Essa é sua música favorita ne Laura?- Gabriel me perguntou.
'Sim, é sim'- respondi surpresa, como ele sabia disso? 
Macarronada pronta, almoçamos e depois ficamos jogando conversa fora na praia. Os meninos foram surfar de novo e como eu nem a Clara sabíamos, ficamos conversando na praia tomando um solzinho. E eu,claro, observando o Gabriel. O jeito dele andar, dele surfar, dele mexer no cabelo, seu sorriso. Tudo nele me encantava, tudo. 
'Você ainda é apaixonada por ele né amiga?'- perguntou Clara, percebendo que eu não parava de olhar pro Gsbriel.
'Sim'- foi tudo que eu consegui responder. 
No fim da tarde foram todos pra casa e eu quis ficar sozinha um pouco na praia. Ficar sozinha e pensar na vida, em tudo. Que bom que eu tinha levado blusas de frio, porque o tempo estava mudando e um vento frio batia em meu corpo. Mas ainda tinha o restinho do sol que estava se pondo pra me aquecer. Aquele silêncio, que só era interrompido pelo som das ondas do mar era tudo que eu precisava.
De repente eu sinto uma mão no meu ombro. Olho pra trás e vejo ele, o Gabriel.
'Quer andar um pouco comigo pela praia?' - ele perguntou olhando em meus olhos. O olhar que eu amava.
'Ta, pode ser'- respondi sem jeito.
Andamos por alguns minutos em silêncio, não sabia o que dizer a ele. O silêncio foi interrompido por ele:
'Humm,e aí, você está bem Laura?'
'Sim, eu estou'- na verdade eu menti, porque o frio só aumentava. Cruzei os braços como uma forma de me esquentar.
Ele percebeu tudo isso e me abraçou. Me abraçou e parou. Eu quis me esconder dentro daquele abraço. Aquele abraço que vinha junto com aquele perfume maravilhoso que só ele tinha. Ele se afastou um pouco de mim e ficou olhando em meus olhos. Será que ele já sabia tudo que se passava dentro de mim? Será que ele sabia que eu o amava. Desde a primeira vez que a gente se viu? Sim, ele já sabia. Olhando bem fundo nos meus olhos e passando a mão em meu rosto ele disse:
'Eu também te amo'- e sorriu, o sorriso mais perfeito que eu já vi. 
E eu também sorri. O sorriso mais verdadeiro que eu já tinha dado na minha vida. E enquanto o sol ia se pondo e o vento gelado ia batendo em nossa pele e a noite ia chegando, ele me beijou. Eu poderia ficar ali naquele vento ou então até na neve. O seu abraço era minha proteção, não precisava de mais nada.

Flores e ele

Manhã fria, apesar de não estarmos no inverno. Mas seguir as estações a risca hoje em dia é quase impossível. Acordei e fui preparar um chocolate quente pra mim. Chocolate quente e algumas torradas. Queria tomar meu café e terminar de ler alguns livros pra fazer um trabalho no dia seguinte. Tomava meu café da manhã no mais completo silêncio. Desde que tinha ido morar sozinha o silêncio era meu maior companheiro. 
Tudo bem, eu não estava gostando mais dele. Ele já estava me irritando. Queria barulho, queria festa. Queria que aquela pessoa estivesse ali comigo. Mas depois da nossa briga três dias atrás achava meio impossível que ele voltasse a falar comigo. Como eu fui burra de ter falado tudo aquilo pra ele. Como eu fui burra! Tudo que eu queria era pedir perdão. Mas eu não era a única errada. Ele também estava errado e tinha que vir pedir perdão pra mim também. Eu já tinha decidido que não ligaria pra ele nem mandaria mensagem. Ele teria que me ligar. Mas até aquele momento nada. Nem uma única mensagem no celular. 
Quando o chocolate quente e as torradas tinham terminada o meu silêncio foi interrompido pela campainha. Quando abri a porta não tinha ninguém, só uma carta no chão. Peguei e a abri. E eis o que estava escrito: "Não sei o que aconteceu comigo aquele dia. Eu só queria que ele não tivesse existido." Só isso, sem assinatura. Mas uma assinatura naquela carta seria inútil. Vou admitir que enquanto estava lendo um sorriso surgiu em meu rosto.
Depois de alguns minutos a campainha tocou de novo e dessa vez não tinha uma carta no chão. Dessa vez ele  estava na minha frente. Escondido atrás de um buquê de flores. Peguei as flores, coloquei em cima da mesa e o abracei com toda a força. Não queria flores nem presentes naquela hora. Tudo o que eu queria era ele de volta na minha vida. E naquele instante o meu maior companheiro, o silêncio, foi substituído pelo amor da minha vida!